sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Hedda Gabler


Vamos tentar fazer isto com calma. Começamos como se de nada se tratasse. Actualmente em cena no Auditório Municipal Eunice Muñoz está Hedda Gabler, a brilhante peça do não menos brilhante Ibsen. O teatro de Ibsen, para além de refinadamente intelectualizado, é um teatro, acima de tudo, súbtil. É um teatro muito humano, de alguém atormentado e que, como tal, escreve sobre pessoas atormentadas. É sobre a actuação do homem, sobre os meandros mais escondidos que condicionam o seu agir, que se centra a obra de Ibsen. E, ao mesmo tempo, é um teatro muito social, não tanto na noção revolucionária do termo, mas enquanto análise das relações. Ibsen não se contenta com o estudo do comportamento, mas analisa o comportamento em si também. Fá-lo sem nunca cair nos riscos de um teatro afastado do seu público - as suas peças têm quase sempre personagens intelectuais mas não se esgotam nesse elogio da cultura. E, como se dizia no príncipio, é um teatro subtil, cujo sub-texto não está escondido mas não é gratuito. O que o teatro de Ibsen não é, sob risco de o fazer remexer-se algures, é uma mistura entre sitcom televisiva e teatro de revista.
A maior parte dos críticos adoraria uma Hedda Gabler como esta. Quase nada faz sentido e, no meio de tanto desastre, chega a tornar-se constrangedor. Mas, a dada altura, o desespero pelos danos numa peça tão boa é maior que o alívio da crítica fácil. Não há paninhos quentes que aqueçam esta verdade fria e simples. Esta Hedda Gabler não é a de Ibsen, é uma pálida imagem de um texto grandioso numa encenação miserável. Percebe-se que Celso Cleto pensa estar a fazer um grande trabalho, numa qualquer fantasia de trazer o teatro às pessoas. Nada mais errado quando se transforma uma peça central de Ibsen numa pantomima banal, onde as personagens são bonecos sem vida e a encenação vive da procura do riso fácil. Há opções falhada a todos os níveis da encenação. Quer no pormenor - luzes que mudam drasticamente com uma música que apela ao choro fácil, a lembrar o pior das piores telenovelas - quer nas noções básicas - as movimentações dos actores são do mais primário, básico e anti-natura, sempre a quer prender uma atenção desnecessária do público.
Podiamos culpar Celso Cleto de todos os males da peça - e se os há - mas seria injusto. Não para com ele - o que eventualmente também será - mas para os actores que em tanto contribuem para tamanha desgraça. Não descriminemos ninguém. Sofia Alves é uma boneca de porcelana sem noção da personagem que leva aos ombros, sem perceber que é mais importante na dinâmica condutora e esgota-se na sua frieza mal simulada que se vai libertanto, completamente a despropósito, ao longo da peça. Esperava-se mais de alguém que até já fez de gémea de si própria. Guilherme Filipe é, de facto, um actor dinâmico. Mas, quando se pede contenção, dá-nos exaltação desmedida. Vive toda a peça no seu registo hiperactivo. Logicamente, quando a peça caminha para o seu desfecho dramático, é incapaz de ser credível na sua dor, e limita-se a viver do gag fácil que o texto da personagem proporciona - o que, em boa verdade, faz com talento. Paulo Rocha de escritor amargurado e sofrido parece ter muito pouco, e há sempre mais charme para o público do que sofrimento interno. Vitor de Sousa, não sendo actor, é dos menos maus e peca apenas pelo reduzido reportório - temos sempre ideia de já ter visto aquilo em qualquer programa do Herman. De Ana Rocha - que se guardou para o fim com medo das palavras - há pouco a dizer porque pouco faz. Estar em palco, está. Mas representar, quase nunca. Interpretou à letra uma fala da peça de Ibsen - onde se diz da sua personagem que é estúpida - e limitou-se a esse conceito, com mais ou menos trabalho pessoal, tomando, como consequência, por estúpido o público. De Ana Rocha não se ouviu uma entoação que fizesse sentido, uma pausa na frase que fosse lógica ou uma expressão que não fosse uma ridicularização simplória para levar ao riso. Sobram, por exclusão, Elisa Lisboa - competente no papel de tia seca e conservadora - e Maria Dulce - exemplar e experiente, como sempre, na arte de manietar o riso do público com as pequenas personagens. A única valência desta deslocação seria o texto de Ibsen. Donde se retira que não vale mesmo a pena sair de casa: compre o livro e, se sentir falta de um intriga à portuguesa de riso fácil, assista a uma encenação semelhante em qualquer novela das 9.
Título: Hedda Gabler
Autor: Henrik Ibsen
Encenação: Celso Cleto
Elenco: Sofia Alves, Ana Rocha, Elisa Lisboa, Guilherme Filipe, Maria Dulce, Paulo Rocha e Vítor de Sousa

9 comentários:

afonso disse...

ja vi tambem a peça...acho abusivo e disparatado o ataque, imagino que deve ser pessoal ???
em relaçao ao texto, penso que deveria voltar á universidade para apreender o que é uma tragico-comedia, assim poderia ter uma noçao de mais concreta das coisas, para então escrever sobre o que aprendeu.
assim a escrever como escreve não passará de uma solitaria ou um solitario anonimo a dizer mal dos que fazem alguma coisa.

Hitchhiker disse...

Zero pessoal, não conheço rigorosamente ninguém envolvido. Obrigado pelo concelho académico - pelas suas palavras nota-se claramente ser um conhecedor profundo - e pela preocupação com a minha suposta amargura. Quanto à peça em si, não sei se teve tempo para perceber, mas disse zero.

Ana Rocha disse...

Respeito todas as críticas e opiniões. É salutar a troca de ideias principalmente quando as pessoas dão a cara e defendem o que dizem. Eu dou a minha cara e não me escondo por trás de um nome inventado como o jovem faz. Sou eu própria, a Ana Rocha, que lhe escreve. Faço-o por ficar lamentavelmente surpreendida com as suas palavras em relação aos meus colegas, em relação a mim naturalmente nem vou fazer referência. Se não tem conhecimento do trabalho e da carreira de um actor como o Vitor de Sousa, não diga aquilo a que não tem direito. Informe-se e dobre a língua afiada quando se referir a um homem como ele. Não digo sequer que tenha de ser apreciador do seu trabalho mas respeite-o. A sua idade e a sua falta de conhecimento não lhe permitem o abuso das suas palavras em relação a muitas das coisas que aqui refere. Quanto ao facto de não ter gostado do espectáculo, esse sim, é um direito que lhe assiste e que respeito. Não podendo deixar de contestar a sua frase absurda em que considera uma fantasia fazer chegar o teatro às pessoas. O teatro não é outra coisa senão chegar às pessoas... Tenho pena... Não chegámos a si mas já chegámos a mais de 6 mil pessoas até agora. A reacção do público tem sido absolutamente fantástica. Claro que existem sempre os mais diversos pontos de vista em relação a uma obra. Aquilo que não pode existir é uma tentativa destrutiva de singularidades não fundamentadas e pseudo-intelectuais. Esta, meu jovem, é uma obra maravilhosa precisamente pela controvérsia que provoca desde sempre. É de extremo interesse estudar a fundo todas as possibilidades que assistem a este texto. A versão que está no palco de Oeiras é uma delas e isso, concorde quem concordar, nem se põe em causa! É a visão de um encenador que ali está e permanecerá. Um dia quando fizer a sua encenação, se alguma vez a fizer, colocará nela o que bem entender e ninguém terá o direito de proferir palavras idênticas às suas pois será fiel à sua visão tal como o Celso Cleto o é à visão dele. Pode gostar, não gostar, amar ou mesmo odiar mas aprenda a respeitar aqueles que dão o litro em cima de um palco evitando dizer alarvidades levianas sobre os outros e o seu trabalho. A sua crítica... "É uma coisa que se diz mas que não se faz". Haja sensibilidade e bom senso.
Ana Rocha

Hitchhiker disse...

Não me escondo por trás do "nome inventado" - aliás, consultando o blogger facilmente se acede a estas informações: Gustavo Jesus, 23 anos, 6ºano de medicina.
Quanto ao conteúdo do seu contraditório parece-me inteiramente justo e certo. Como disse, é salutar que se troquem ideias entre pessoas que dêem a cara e defendam as suas ideias. Como os dois fazemos. Claramente com ideias diferentes, ainda assim a defendê-las.
Apenas um reparo. Lido o texto com atenção, repare-se que não faço uma única consideração sobre a carreira de ninguém e ainda menos faço desconsiderações pessoais. Tudo o que critíco é relativamente a esta peça e tão somente a ela. Pode discordar do que digo - é perfeitamente legítimo - e ainda mais do tom. Mas em momento algum ofendi alguém pessoalmente ou ataquei a sua carreira.
Tudo o resto, sobre a peça, subscrevo o que escrevi.

(Repare que o mesmo que escrevo não se poderá aplicar ao seu texto, cujo conteúdo é claramente difamatório. E suspeito que conheça ainda menos a minha carreira do que eu conheço a de Vitor Sousa.)

ANA BARREIRA disse...

Só por acaso, e digo-o porque não é costume meu entrar nestas palhaçadas do diz que disse, resolvi entrar na conversa.
Meu caro, também nunca deixo de assinar o que digo e faço pois é um ponto de honra para mim. sou professora de matemática e tenho 42 anos, isto para lhe responder á sua introdução de apresentação (digamos despropositada) irrelevante o que estuda e em que ano- mas seguindo a sua filosofia, as apresentações estão feitas.
Li atentamente a sua critica foleira e escusado será dizer que colocou o pé na argola... A sua pouca idade mas grande presunção, resolveu denegrir o espectaculo num todo, e como se não basta-se entrou no ataque pessoal sim! se não o reconhece é porque o seu ego é tão grande que o cega, mas em caso de duvida releia!
O actor Vitor de Sousa tem uma vasta carreira com mais do dobro da sua idade a fazer teatro e bem!para si, só fez rabulas de tv??? que presunçoso meu caro futuro Dr.
a actriz Ana Rocha chegou-lhe forte e feio, e se o meu caro fosse mais humilde encaixava e não estrabuxava...
por curiosidade fui Domingo assistir ao espectaculo e digo-lhe sinceramente que o achei notavel. uma tragico-comédia muito bem dirigida com um elenco de grande qualidade artistica digno de grandes aplausos. ainda bem que nem todos gostamos do mesmo, pois as artes permitem precisamente isso, a discordia. Parece-me um ponto sem grandes considerações a fazer.
Agora o seu ataque pessoal aos actores e ao encenador,é para além de injusto maldoso. diga lá o que disser, defenda-se com as suas teorias próprias da idade, mas foram de baixo nivel.
Ainda lhe digo mais, a sala estava com cerca de 200 pessoas que tal como eu aplaudiram de pé.
Mesmo quando não se gosta, não se pode difamar sem respeito pelo trabalho e carreira dos envolvidos. isso meu caro é elementar.
Eu envio-lhe esta opinião( que claro, entra-lhe a 100 e sai a 200) , pois a sua grande lata ao dizer que não ofendeu ninguem,revela tudo sobre si.
Ana Cristina Barreira

Anónimo disse...

O vosso público deve ser com certeza o mesmo público que vos acompanha nas telenovelas da tvi e que assiste com euforia ao Lá Féria. Que não é um público que aprecia Ibsen, disso temos a certeza. A vergonha não está no rapaz de 23 anos que decide criticar, a vergonha está nos actores e no encenador que decidiram fazer um génio como o Ibsen.
Foi lamentável assistir a este espectáculo. Mas também quem vai já sabe mais ou menos do que está à espera ao ver o cartaz. Mas nós, tanto eu como o senhor dono deste blog, como pessoas, estamos sempre à espera que nos surpreendam.
Mas parece que nos vamos deixar disto, começa a ser insuportável.

Anónimo disse...

coitado do la feria ele sozinho leva mais gente ao teatro, que todos os outros juntos.o de senao gostam porque vao ver ???? eu nãõ gosto de boi nem de vacas por isso nao vou á tourada.

Patrícia Gomes disse...

É lamentável todo este circo que se criou em volta da peça "Hedda Gabler".
Não se coloca em causa o facto de terem gostado da peça ou não, até porque não se podem agradar nem a gregos nem a troianos. No entanto, é de uma falta de respeito e de educação vir para um espaço público fazer difamações deste tipo.
A peça é realente fabulosa e muito bem dirigida. O elenco é um elenco de luxo e nem vou comentar a prestação da grande Sofia Alves. Ela é das melhores actrizes do panorama artístico português com mais do que provas dadas em relação ao seu talento.
Fui ver a peça vérias vezes e é um espectáculo soberbo.
Quero dar um conselho ao autor deste pseudo-comentário: fale do que sabe.
O texto que escreveu é deplorável.
As pessoas gostam muito de falar mal e criticar, especialmente quando não percebem nada do assunto.
Comece a prestar atenção ao que as pessoas entendidas no assunto lhe dizem, como a Ana Rocha
Sem mais a acrescentar,
Patrícia Gomes

Anónimo disse...

achei bom o espectaculo