sábado, 3 de novembro de 2007

Corrupção

Este é um daqueles filmes onde é impossível separar o objecto artístico do contexto que o envolve. Torna-se difícil saber o que julgar. O filme de João Botelho, que afinal já não é de João Botelho, o livro que lhe dá origem ou os meandros da corrupção portuguesa que dão origem ao livro e nome ao filme. A corrupção do futebol português, todos a conhecemos e ninguém dela duvida. O livro de Carolina Salgado e as suas intenções também ninguém desconhece, nem o conteúdo nem o teor. O filme de João Botelho segue a linha destes últimos. Sujo, mal escrito e cheio de corrupção à portuguesa.

Não é de fácil percepção de quem é a culpa. Se do livro de Carolina Salgado, se da adaptação de Leonor Pinhão ou se do próprio João Botelho. Seja de quem for, ninguém merece o festival de horror que se materializa no guião e que afecta os actores – a parte nobre deste filme mas que, nem assim, o salva. Existem falas de uma inverosimilhança atroz, de uma falta de naturalidade bacoca e que há muito não se viam no cinema português. Um guião sem linha condutora, sem coerência, sem verdade artística, sem rigorosamente nada que não uma necessidade de expor as situações que o livro já evidenciava. Fazendo de Carolina Salgado uma mártir, espécie de heroína dos tempos modernos na cavalgada contra o poder instituído, o guião torna-se mais cego que a cegueira que denuncia.

Não bastasse o guião ser do mais fraco e ineficiente possível, mas a realização de Botelho acentua-o, tornando-o ainda mais incomestível. Este endeusamento de Sofia – o nome da namorada do Presidente – leva a escolhas incompreensíveis como a de filmar Sofia em planos constantemente frontais, mesmo quando tal não faz sentido nenhum. A isto, junte-se bastante sexo a despropósito, uma linha de acção sem nexo nem sequência que mais não são que cenas desconexas, palavrões a eito na tentativa frustrada de tornar o texto mais real e um conjunto de cenas que se passeia entre o ridículo e a falta de sentido.

Infelizmente, nem o punhado de grandes actores que o filme possui se salvam, em grande parte por culpa do próprio filme. Nicolau Breyner remete-nos constantemente para o Presidente que todos sabemos ser tal como Margarida Vilanova consegue bastante bem a caracterização de Carolina Salgado. Ainda assim, permanece sempre o travo amargo a irrealidade que o guião não permite ultrapassar. Miguel Guilherme, Vergílio Castelo ou João Ricardo mostram apenas fracas imagens dos actores que verdadeiramente são.

Há corrupção no futebol português? Claro que sim. Há compadrios, trocas de interesses, apadrinhamentos e subornos a toda a escala na sociedade portuguesa, em especial nos meios que o filme foca? Com certeza. Mas nada disto, nem nenhum tema, justifica um filme tão fraco. Nunca o cinema português esteve tão mal.

Título: Corrupção
Realizador: João Botelho (não creditado)
Elenco: Nicolau Breyner, Margarida Vila-Nova, António Cerdeira, Paula Lobo Antunes, Alexandra Lencastre, Edmundo Rosa, José Raposo, Ruy de Carvalho, Rita Blanco e Miguel Guilherme
Portugal, 2007.

Nota: 2/10

3 comentários:

Wellington Almeida disse...

O Joao Lopes no seu Sound + Vision falou muito bem desse episódio do filme do João Botelho que não é mais do Joao Botelho...

Boa descoberta o seu blogue.

B. disse...

http://static.publico.clix.pt/docs/suplementos/ipsilon/

Why not?

PS: o "não creditado" é marketing. Só. Até irrita, mas os que fazem bons filmes, têm de aprender a fazer este tipo de tretas para agarrar as pessoas...

Só me lembro do "Exorcista" quando estreou, metiam ambulâncias à porta dos cinemas, para quem se sentisse mal...Genial, eu ia ver um filme onde fizessem isso...

Hitchhiker disse...

Wellington, não percebi a que episódio se estava a referir.

B., sou capaz de fazer isso sim, obrigado pelo link.