quarta-feira, 5 de setembro de 2007

45 rotações #1 - OK Computer

O melhor que a MTV, enquanto modelo, nos trouxe facilmente se percebe. O fácil e rápido acesso a todo um novo mundo de novas bandas, novos singles, novos sons. O pior também. O imediatismo e a procura desenfreada do next big thing, o single deste verão que para o ano está esquecido. Quando Pablo Honey surgiu, os Radiohead pareciam apenas mais um (o)caso.

Fundados em 1982, então sobre o nome de On A Friday, somente em 1993 viria o primeiro álbum. Agarrados a um single, que só à segunda pegava, "Creep", os Radiohead mostravam-se ao mundo, que não parecia fazer grande gala em recebê-los. Dois anos depois The Bends, um bom disco, mas, de novo, sem especial interesse. E, dois anos depois, numa previsibilidade que começava a roçar o irritante, quando todos esperavam mais um álbum Pop-Rock de guitarras esganiçadas e refrão certinho, a banda de Thom Yorke edita OK Computer.

Sob o signo de Nigel Godrich, o produtor que já trabalhara com a banda nos singles "Black Star" e "Lucky" (que viria a ser inserido no disco), os Radiohead conseguem em OK Computer não só o seu melhor trabalho até à data, como o melhor cd da década de 90, considerado por muitos um dos melhores cds de sempre. Em Ok Computer há uma raiva gritada ironicamente com a frieza que os materiais opressores utilizam. Há uma ostensiva melancolia misturada com agressividade. Deus desceu à terra e não gostou do que viu.

Num mundo oprimido pela máquina, num quotidiano onde a rotina e a repetição imperam, Yorke soube derrotar o sistema por dentro, soube aproveitar a frieza dos sons computadorizados, numa mistura entre electrónica e Rock Progressivo, para criar um dos mais belos cds de sempre. Ok Computer são os Pink Floyd, os U2, os Beatles, os Air e os Radiohead de Pablo Honey remixados pela motherboard dos nosso computador caseiro.

Começa com "Airbag" (Aviso para nos protegermos do que aí vem?), música onde se começa a notar o trabalho de Godrich, a bateria de Phil Selway degladia Greenwood num prenúncio asfixiante. De seguida, por razões divinas, aparece a terceira faixa, "Subterranean Homesic Alien", onde os Air e os Divine Comedy de Regeneration se fundem. "Exit Music (For a film)" é um exercício Morriconeano de força, a prova de que a faixa #2, a tal que por divina intervenção saltámos, não foi um erro. Em "Let Down", o mais próximo que conseguiremos encontrar de Pablo Honey, fala-se de pessoas desapontadas com aquele som inconfundível que só este cd conseguiu criar. A asfixia não mata.

"Karma Police", ponto mais alto no que à busca de singles diz respeito, traz uma melodia suave onde a voz insegura de Yorke pauta a mudança entre um refrão bem comportadinho e eficaz e o mar emotivo que o resto da música cria. Paradigma deste álbum conceptual, "Fitter Happier" não é música, é manifesto de intenções. Segue-se o exemplo mais britânico da banda de Oxford, "Electioneering", onde os Blur e os Oasis fazem um dueto numa ode aos Beatles. Há memória neste computador.

Segue-se a nona faixa, "Climbing up the Walls", ambientador intimista e melancólico, de onde os Blur ainda não foram embora, mas para onde convidaram os seus amigos Smahing Pumpkins. Imagine-se a frescura dos Blur, sugada pelos climas de Adore. E depois, "No Surpises". Que sem surpresas se apresenta como uma das melhores músicas, das mais belas. Para quem estiver dentro do Universo Potteriano, imagine um Dementor em forma de melodia. Para quem não estiver, simplesmente tente sentir que, de repente, ficou sem alma. Futura banda sonora do filme A Residência Espanhola, Yorke pede-nos, no seu cantar lamuriante, "No alarms and no surprises".

E é, de facto, sem alarmes nem surpresas que o cd prossegue. Porque se segue "Lucky", previamente inserida na coletânea HELP para os refugiados da Bósnia. Por último, anunciando que a passagem por este universo matrixiano tem um término, "Tourist" mostra-nos um Yorke a fazer lembrar o Chris Martin de "Spies", numa languidez insuportavelmente bela. Falta falar de Deus.

De tempos a tempos, são precisos milagres. Em 1979, sobre o cognome de Queen, Deus editou Bohemian Rapsody. Em 1997, encarnou Thom Yorke e veio cantar a luxúria musical. "Ambition makes you look really ugly", diz-nos ele em Paranoid Android. Mistura eclética e conceptual de Rock-Progressivo, do melhor Rock-Progressivo Britânico, com o melhor Pop-Rock. Pelo meio, paraíso musical em tons gregorianos, com pitadas de vozes computadorizadas. "God loves his children" são as últimas palavras deste cristo que se crucificará ao longo do trabalho. O homem nunca esteve tão perto de Deus.

Em "Karma Police", Yorke diz-nos "For a minute there, I lost myself". Graças a Deus. Foi precisamente nesse instante que Ok Computer foi feito.

Título: OK Computer
Autor: Radiohead

Nota: 10/10

2 comentários:

A. José. disse...

Faz agora 10 anos... Para mim, continua a ser o melhor disco que alguma vez ouvi. E ouvi-o tantas, tantas, tantas vezes. A crítica está excelente. Um abraço.

B. disse...

Nada a apontar...

Nesse dia fez-se história...