
A metáfora por excelência. O cinema pode ser poesia. O Vale era Verde é a prova disto mesmo. Realizado por John Ford apartir de um romance original de Richard Llewelyn, conta a história de uma família de mineiros do País de Gales no princípio do século vinte. É através de uma auto-biografia retrospectiva de Huw Morgan, 60 anos depois, que conhecemos os membros da família, as suas desventuras e emoções e, paralelamente, a vida do vale onde se inserem, das suas gentes e preocupações.
O Vale era Verde é essencialmente um filme metafórico. Na passagem para um novo século, a presença da realidade mineira na vila apresenta-se como uma faca de dois gumes. Sustenta-a e polui-a. Sustenta o vale, na medida em que é a principal, senão o única, fonte de rendimentos para toda aquela população. Será esta dependência que estará na origem do descalabro que se abaterá sobre o vale com a escassez de empregos e o surgir de mão-de-obra mais rentável.
Polui o vale, em todos os sentidos possíveis. No sentido mais literal, desaparecerá o verde encantador da infância de Huw, substituído gradualmente pelo industrial cinzento. Este cinzento que ofusca a frescura da natureza não é mais que a alegoria da alma de cada um destes habitantes galeses. Elucidativas as imagens iniciais em que o Vale se dirige como um todo, ao som de cânticos tribais, para as minas. Não tão subtilmente quanto isso, um cinzento interior abater-se-á sobre todo este mundo rural. Intrigas e suspeitas, contestações e sindicalismos, desemprego e fome, muitas serão as provações a que este povo tipicamente trabalhador se terá de sujeitar.

O Vale era Verde é, para além desta grande e elaborada metáfora, um excelente filme de época. Não tanto fisicamente. Há o vestuário, a paisagem, a caracterização das personagens, os vastos pormenores da casa dos Morgan. Há tudo isto. Mas o que mais impressiona é a coerência psicológica, para o bem e para o mal, de um povo cuja verdade é o trabalho. As virtudes e as teimosias irracionais de um meio rural, pouco dado a literacias. O trabalho, a religião e a virtude como contraponto da educação intelectual e da podridão social. Os únicos apoiantes da educação de Huw seriam Mr. Gruffydd e o próprio pai de Huw, dono de uma visão estratégica e sentido de dever atrozes.
Este pai, chefe do clã Morgan e uma das referências do Vale, é Donald Crisp, vencedor do Óscar de Melhor Actor Secundário com O Vale era Verde. O Filme arrecadaria ainda a estatueta para outras quatro categorias, nas quais se incluem Melhor Realizador e, obviamente, Melhor Fotografia. Para além destes 5 oscares, estava nomeado para outros tantos e receberia ainda o prémio de Melhor Filme Estrangeiro pela Associação de Críticos Argentinos e de Melhor Realizador pela Associação de Críticos de Nova Iorque.
O Vale era Verde é um filme invulgarmente belo. Belo no sentido fotográfico do termo e belo no sentido mais humano que poderá ter. Uma metáfora da confrontação de um mundo mais virgem e conservado com uma realidade à qual não há fuga possível. Maria do Rosário Pedreira escreveu: “Tudo o que vem de ti é um poema”. Ninguém descreveria melhor este filme.
Título: O Vale era Verde
Realizador: John Ford
Elenco: Roddy McDowall, Donald Crisp, Walter Pidgeon, Maureen O’Hara, Anna Lee, Sara Allgood, John Loder e Patric Knowles.
E.U.A., 1941
Nota: 10/10
3 comentários:
eu estava no google procurando informações sobre o livro "less than zero" quando me deparei com o blog Espaço de Crítica Artística. achei muito interessante e completo. como fiquei sabendo que o blog se desmembrou e agora as resenhas estão em dois blogs, venho aqui te parabenizar pelo trabalho. eu li várias resenhas sobre livros e cds e gostei bastante. abraço
*uma dúvida, tu és português?
Obrigado pelas visitas e pelo elogio. Respondendo à questão, sou sim. Abraço.
o que eu estava procurando, obrigado
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