domingo, 22 de julho de 2007

35 mm #1 - O Vale era Verde

“Men like my father cannot die. They are with me still, real in memory as they were in flesh, loving and beloved forever. How green was my valley then.”
A metáfora por excelência. O cinema pode ser poesia. O Vale era Verde é a prova disto mesmo. Realizado por John Ford apartir de um romance original de Richard Llewelyn, conta a história de uma família de mineiros do País de Gales no princípio do século vinte. É através de uma auto-biografia retrospectiva de Huw Morgan, 60 anos depois, que conhecemos os membros da família, as suas desventuras e emoções e, paralelamente, a vida do vale onde se inserem, das suas gentes e preocupações.
O Vale era Verde é essencialmente um filme metafórico. Na passagem para um novo século, a presença da realidade mineira na vila apresenta-se como uma faca de dois gumes. Sustenta-a e polui-a. Sustenta o vale, na medida em que é a principal, senão o única, fonte de rendimentos para toda aquela população. Será esta dependência que estará na origem do descalabro que se abaterá sobre o vale com a escassez de empregos e o surgir de mão-de-obra mais rentável.
Polui o vale, em todos os sentidos possíveis. No sentido mais literal, desaparecerá o verde encantador da infância de Huw, substituído gradualmente pelo industrial cinzento. Este cinzento que ofusca a frescura da natureza não é mais que a alegoria da alma de cada um destes habitantes galeses. Elucidativas as imagens iniciais em que o Vale se dirige como um todo, ao som de cânticos tribais, para as minas. Não tão subtilmente quanto isso, um cinzento interior abater-se-á sobre todo este mundo rural. Intrigas e suspeitas, contestações e sindicalismos, desemprego e fome, muitas serão as provações a que este povo tipicamente trabalhador se terá de sujeitar.
Não há qualquer tipo de vitimização nesta película. O clã Morgan, um paradigma do seu povo, é trabalhador. Rural, honesto e temente a Deus, como todos, é uma família sofredora mas intransigente na defesa do trabalho como valor fundamental. Este cinzento que se abate sobre todos, pousará a sua mão também sobre os Morgan. Doença, infelicidade, necessidade de emigração e morte são algumas das consequências que o Vale traz ao clã de Huw.
O Vale era Verde é, para além desta grande e elaborada metáfora, um excelente filme de época. Não tanto fisicamente. Há o vestuário, a paisagem, a caracterização das personagens, os vastos pormenores da casa dos Morgan. Há tudo isto. Mas o que mais impressiona é a coerência psicológica, para o bem e para o mal, de um povo cuja verdade é o trabalho. As virtudes e as teimosias irracionais de um meio rural, pouco dado a literacias. O trabalho, a religião e a virtude como contraponto da educação intelectual e da podridão social. Os únicos apoiantes da educação de Huw seriam Mr. Gruffydd e o próprio pai de Huw, dono de uma visão estratégica e sentido de dever atrozes.
Este pai, chefe do clã Morgan e uma das referências do Vale, é Donald Crisp, vencedor do Óscar de Melhor Actor Secundário com O Vale era Verde. O Filme arrecadaria ainda a estatueta para outras quatro categorias, nas quais se incluem Melhor Realizador e, obviamente, Melhor Fotografia. Para além destes 5 oscares, estava nomeado para outros tantos e receberia ainda o prémio de Melhor Filme Estrangeiro pela Associação de Críticos Argentinos e de Melhor Realizador pela Associação de Críticos de Nova Iorque.
O Vale era Verde é um filme invulgarmente belo. Belo no sentido fotográfico do termo e belo no sentido mais humano que poderá ter. Uma metáfora da confrontação de um mundo mais virgem e conservado com uma realidade à qual não há fuga possível. Maria do Rosário Pedreira escreveu: “Tudo o que vem de ti é um poema”. Ninguém descreveria melhor este filme.
Título: O Vale era Verde
Realizador: John Ford
Elenco: Roddy McDowall, Donald Crisp, Walter Pidgeon, Maureen O’Hara, Anna Lee, Sara Allgood, John Loder e Patric Knowles.
E.U.A., 1941
Nota: 10/10

3 comentários:

Matheus Piovesan disse...

eu estava no google procurando informações sobre o livro "less than zero" quando me deparei com o blog Espaço de Crítica Artística. achei muito interessante e completo. como fiquei sabendo que o blog se desmembrou e agora as resenhas estão em dois blogs, venho aqui te parabenizar pelo trabalho. eu li várias resenhas sobre livros e cds e gostei bastante. abraço

*uma dúvida, tu és português?

Hitchhiker disse...

Obrigado pelas visitas e pelo elogio. Respondendo à questão, sou sim. Abraço.

Anónimo disse...

o que eu estava procurando, obrigado