segunda-feira, 21 de abril de 2008

Entre Mim e Deus


Encontro-me várias vezes sozinho a defender o Teatro dito amador. Não sou o único, bem sei. Mas não são poucas as vezes que tenho de esgrimir contra argumentos óbvios, e não por isso menos verdadeiros, de dedicação, profissionalismo e organização. O Teatro Amador é, por necessidade, um teatro com menos meios, com menos disponibilidade, com menos recursos. Mas, em nada, um teatro menos apaixonado, menos importante e menos influente. Um pouco como o Teatro Universitário – com que anda, aliás, de mãos dadas. Sei, por experiência própria e pelo prazer em ver bom teatro amador, que é possível criar interessantíssimos espectáculos neste meio. É possível produzir excelentes peças (como Pirandello, num exemplo recente), encontrar grandes interpretações e ser surpreendido com encenações de indiscutível qualidade. De onde vem, então, esta má imagem que, em geral, o público – já de si um pouco afastado do teatro – tem do Teatro Amador?

Do Grupo de Teatro Disfarces, Entre Mim e Deus está em cena. Nada me ilude nem, pelo contrário, me espanta. Nem consegue, exercício extremo de não me deixar indiferente, irritar-me. O máximo que esta peça – permito-me chamar-lhe assim, numa liberdade textual – me incute é uma reflexão profunda sobre o sentido deste teatro. Não é a peça, retalho descosido de história desconexas. Não é a encenação, confusão estética de difícil entendimento. Não é a interpretação, fogacho de um tempo de ausência de identidade que já não existe. Nada espanta tanto como a falta de sentido de tudo isto. Que sentido esconde uma peça sobre as ligações humanas de um homem com quatro mulheres e um padre? E qual a causa de todo o descalabro? O problema primário, de que os outros são apenas consequência ou factores incapazes de o abafar, é um texto sem coerência estilística, linguística ou teatral. Como sempre, no princípio era o verbo. Ainda é. Tem é de estar bem conjugado.

O que me aflige não é uma peça que não resulta, uma ideia errada de noção teatral ou opções que sou incapaz de entender. A verdadeira preocupação é poder haver quem julgue estar ali a essência do amadorismo do teatro amador. Não está, de todo. Há muito bom teatro amador em Portugal. Há, talvez, outro tanto teatro amador no lado oposto. Mas, nem um nem outro, devem fazer esquecer as adversidades e as qualidades desse mesmo teatro que constitui, em última análise, a argamassa do teatro nacional e a fonte de onde nasce toda a paixão (e talento, ideias e novidades) que alimentam o Teatro Profissional.

Uma produção do Grupo de Teatro Disfarces, em cena no Auditório Carlos Paredes, de 18 de Abril a 11 de Maio.

Título: Entre Mim e Deus
Autor: José Serradas
Encenação: José Serradas
Elenco: Luísa Hipólito, Julieta Martins, Susana Cerdeira, Raquel Bravo, Carlos Fontoura, António Dente e José Serradas.

5 comentários:

Anónimo disse...

Por acaso tive acesso a esta critica que respeito, mas de facto discordo plenamente com o conteudo.
Adorei este espectáculo, divertido, com excelentes interpretaçãoes, uma banda sonora fantástica e um texto dentro do seu genero bastante inteligente.Não é um texto de autor, claro que concordamos,mas está bem engendrado para o estilo escolhido pelo autor.
Como se pode classificar como um nivel inferior do teatro amador!!!
Isto só me leva a crer sem duvidar que o Senhor não entende nada da arte de representação!
Só espero como espectador deste espectáculo que divulgue esta minha opinião.Não se limite apenas a ser estranhamente um mero detractor do espectáculo e divulgue quem tem uma opinião completamente diferente da sua.
Quem tem a liberdade de dizer o que disse tambem tem o dever de publicar opiniões opostas e discordantes. Aconselho vivamente o espectáculo "Entre mim e Deus".Parabens Disfarces!

Anónimo disse...

Antigamente o teatro era um espéctaculto que as pessoas ansiavam por assistir, um espectáculo que tinha o intuito de animar o espectador e como evento social as pessoas vestiam-se como para uma festa esperando ansiosamente pela peça seguinte..
Os teatros dos antigos ficaram assim na memória e perduram, e tragédias gregas como " Rei Édipo " ou " Antígona" , que dantes eram mostradas nas famosas festas dionísiacas são hoje encenadas em teatros como a Barraca.
Contudo, o teatro perdeu para todos aquela essencia, tendo sido desvalorizado, preferindo o espectador a comodidade de uma sala de cinema passando um filme americanizado num ecrâ de alta-definição à sala de teatro, por vezes em não tão boas condições, quando se trata de teatro amador!
É a pessoas que mesmo assim continuam a acreditar no teatro nacional que nós deviamos juntar as mãos e dar os nossos vivas..
Já assisti à peça "Entre mim e Deus", nao uma, mas sim duas vezes e acho fenomenal o que um grupo com poucos recursos e tantos entraves pode fazer quando à força de vontade e gosto pelo que se faz!! Assinalo a prestação de António Dente e dos restantes actores masculinos digna de actores profissionais e acentuo ainda o fantastico sotaque de Luisa Hipolito, uma excelente escolha para o papel e dou ao grupo que tem evoluido imenso desde as peças anteriores.
Assim, nao posso deixar de concluir com uma frase do Ensaio sobre a cegueira de José Saramago: " Se puderes olhar, vê.. Se puderes ver, repara!" Portanto deixemo-nos da mesquinhez do tipico portugues tacanho e olhemos aquilo que está por tras de cada papel de parede de uma peça de teatro amador nacional. Parabens Disfarces!

Hitchhiker disse...

"Se vossa Majestade me perdoa o atrevimento, eu ousaria dizer que estamos pobres e sabemos" José Saramago.

As citações são sempre um mundo demasiado fácil para se recorrer numa discussão, porque invariavelmente pendem para o lado que se quer, mas ainda assim, dado ter citado um livro que admiro, sobre isso não me prenunciarei.
Sim, o teatro já foi assim, mas evoluiu. Existiram correntes, passaram-se séculos e o teatro já não se comporta da mesma forma. Pergunto-me se os milhares de pessoas que fizeram, estudaram e teorizaram o teatro desde então seriam assim tão pobres de espirito ou teriam tanto menos paixão pela arte como o anónimo. Saudoso ou não do teatro de praça ou de anfiteatro, felizmente não existe apenas esse teatro e os niveis de exigência de quem vê e de quem faz teatro são diferentes - com todo o respeito pelos tempos das tréteaus da commedia dell'arte e das skenes gregas.

Repare que me acusa exactamente do contrário que faço. Se alguém leva a sério o teatro amador nesta discussão, sou eu, que o julgo e critico com a maior das exigências, para que dele se possa fruir o máximo possível e para que dele não se tenham os preconceitos que sobre ele abundam. Exactamente por isso é que não posso pactuar na politica da pancadinha das costas e do tapar os olhos, porque ao teatro amador, qual filho bastardo, tudo é permitido à luz das suas dificuldades. Tacanhez, ou mesquinhez, é não ter o minimo espirito critico ou de julgamento perante esse teatro. Note que não tenho qualquer interese, por infimo q seja, em denegrir o espectaculo. Tenho, sim, todo o interesse em ser isento e lutar por aquilo em que acredito. O teatro amador, o teatro nacional e a critica dos mesmos. Porque, como dizia o seu citado Saramago na sua peça In Nomine Dei, "Abjuro da intolerância, abjuro dos males que pratiquei e permiti, abjuro de mim, quando culpada, e dos meus erros. Mas não abjurarei da minha crença, porque só a tenho a ela."

Diogo (outro anónimo) disse...

Eu não vi a peça em questão mas não posso deixar de comentar a exigência ridícula que é feita.
Esta mania do "se dizes isso também tens que ter aí no blogue o contrário" é absurda e estupidamente recorrente. E o uso da palavra liberdade como quem diz pá também irrita.
A moderação dos comentários está activada para filtrar certos comentários que são dispensáveis a qualquer discussão, não está activada para o autor se proteger. Eu próprio já questionei o autor deste blogue. Agora, chegar aqui e disparar um "espero bem que também ponhas aqui o que eu escrevi" é infantil.

Ao grupo Disfarces, ou ao ferveroso público do grupo Disfarces, questiono: estão à espera que toda a gente goste da vossa peça?

Finalmente, e porque também faço teatro amador, concordo plenamente com o autor do blogue quando ele afirma que nesta discussão é o único que leva o teatro amador realmente a sério porque é exigente. A vitimização da escassez de recursos é uma boa desculpa para se ser preguiçoso.

In B disse...

Gostar ou nao é algo muito relativo. Gostos nao se discutem... sempre o ouvi. Daí achar que este confronto se torna um pouco despropositado. Todos somos livres de emitir criticas, ser alvo delas e discuti-las. Gostei da peça de um modo geral, nao posso dizer que seja uma grande produção, mas não estava má dentro do seu estilo. Sou daquelas pessoas que se pudesse entrava para a sala com um bloco de notas para anotar tudo o alterava ou melhorava, nem que seja simples gestos, palavras ou ate olhares. Tenho este bichinho por gostar bastante de teatro e so não me dedico por falta de tempo, no entanto admiro quem mesmo não tendo tempo o arranja. Nao valorizo a falta de tempo ou recursos como desculpa para a qualidade dos espetaculos, mas considero que so experimentando estes grupos podem fazer uma aprendizagem e evoluir.