
Este podia, como se vê pela sua história, ser um filme muito simples. Mas não o é. É um filme complexo, complicado e de difícil digestão e compreensão. Não porque o enredo dê recambolescas reviravoltas - porque o não dá -, mas porque há uma profunda e enorme metáfora em quase tudo o que acontece neste filme, passado na América profunda do Texas dos anos 80. É nesta América profunda, nestes anos 80, que estudamos a violência de hoje. Estudamos o desenquadramento de uma população aos tempos que se aproximam, estudamos uma América que não está preparada para aquilo em que se tornou. É do jogo entre as três personagens principais, que curiosamente não partilham um único momento no ecrã, que nasce todo o motor que impulsiona o filme.
Quem são os velhos para quem este país não foi feito? Será o Xerife local, imagem remota de tempos idos, onde a lei era uma entidade grande e respeitada; ou Llewelyn, pálido reflexo do que sobrou do sonho americano? É, no fundo, um misto dos dois. Não há espaço para nenhum deles na América que se adivinha no filme dos Coen. Não há espaço para o conservadorismo, para os costumes, para a pacatez ou para a sobriedade da personagem de Tommy Lee Jones, que não passa de uma figura deslocada dos saloons de um tempo de cowboys que já não existe. Nem há esperança para o americano tipo que procura singrar um milagre, uma oportunidade na vida para agarrar, um sonho americano. E ambos, quer a personagem de Jones quer a de Brolin, sofrem na pele o preço de estarem deslocados.
Esta América, que não é definitivamente para velhos, é país para quem, então? É país para a morte. Que é como dizer, é país para Anton Chigurh, que é o mesmo que dizer que é país para Javier Bardem. Esplendorosa interpretação esta a de Bardem, vencedor do Óscar de Melhor Actor Secundário (que de secundário tem muito pouco, dada a sua importância e peso no filme). Chigurh é a antítese dos outros dois. É a América de hoje, que veio para ficar. Tem tanto de amoral, irracional e louco como de talentoso, perfeccionista e liderante. É mais que a própria morte em si, está para além que uma mera representação fisica do mal. É apenas um grande buraco negro, impossível de perscrutar, impenetrável e de onde apenas pode advir o caos e a morte.
A soma destes três homens origina Este País Não é Para Velhos, um eloquente mas retorquido filme, realizado sobre um fundo constante de violência, crua e dessentimentalizada, mas que consegue manter um grande, embora negro, sentido de humor. Interessante, antropologica e sociologicamente falando, é ser nomeado para Melhor Filme ao mesmo tempo que Haverá Sangue. Dois filme que resultam em explicação documental ficionada da identidade e da génese da América de hoje. Dois filmes de homens, com homens, onde a violência é actriz principal. No meio das comparações com Haverá Sangue, Este País Não é Para Velhos limita-se, no âmago da questão, a ser apenas um filme de género, um grande Western. Muito bem realizado, muito bem interpretado, muito bem dirigido, optimamente adaptado do livro de Corman McCarthy. Mas, ainda assim, um Western.
Título: Este País Não é Para Velhos
Realizador: Joel e Ethan Coen
Elenco: Tommy Lee Jones, Javier Bardem, Josh Brolin, Woody Harrelson, Kelly Macdonald e Barry Corbin.
E.U.A., 2007.
Nota: 8/10
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