sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

O Dia das Mentiras

Confesso ter dois grandes e congénitos problemas: a revista e o musical. São defeitos exclusivamente meus que, por um motivo ou por outro, me vejo constantemente afastado, por escolha pessoal, dos dois géneros. O Dia das Mentiras, a peça agora em cena no Teatro da Trindade, é, pois, uma espécie de desafio pessoal na medida em que engloba um pouco dos dois géneros, com maior destaque para o musical. Escrita (ou compilada) por Rui Mendes, a peça recria duas peças de Almeida Garrett, Falar Verdade a Mentir e O Noivado do Dafundo, e junta-as no século XX, no dia 5 de Julho de 1932.

Falar Verdade a Mentir conta a história de um casal de namorados cujo casamento está dependente da capacidade do noivo vencer a sua tendência natural de mentir compulsivamente. Ou pelo menos de a esconder do sogro, disposto a tudo para provar que as histórias mirabolantes que ouve são, como parecem, mentiras. O Noivado do Dafundo retrata, ao melhor estilo de Garrett, o casamento de uma família portuguesa, fascinada com os costumes franceses e que os copia incessantemente, entrando numa espiral de pequena burguesia feita de ridículos e contradições. O ponto de união encontrado por Rui Mendes para juntar as duas peças num hotel lisboeta foi José Félix, servidor de 2 amos, que se desdobra entre as personagens que cria para salvar o noivo das suas mentiras e as dicas de etiqueta francesa com que deslumbra o casamento que prepara.

O ponto forte de O Dia das Mentiras é perceber bastante bem aquilo em que Garrett é melhor, sabendo explorá-lo: a caricatura e a adjectivação irónica de uma sociedade portuguesa demasiado burguesa, demasiado burlesca, demasiado portuguesa. A peça explora bem a pequenez crónica da sociedade, quer na necessidade de hiperbolizar as suas façanhas, quer na vontade de eternamente copiar modelos europeus. A questão é perceber onde termina o mérito de Garrett e onde começa a de Rui Mendes. Se ao primeiro se deve a qualidade do texto em geral, pelo menos ao segundo atribuir-se-à a boa percepção da intemporalidade das peças, transpondo-as para outra época com qualidade e dando-lhes um toque politico com a escolha da data em que acontecem.

Mas nem tudo permite esquecer algumas falhas na peça. As personagens estão, em geral e com poucas excepções, bem compostas mas não disfarçam algumas lacunas que o musical cria pela desigualdade nas músicas. A entrada do próprio Garrett na peça é escusada e sem grande sentido, numa homenagem que a própria peça deveria fazer por si própria. A encenação de Fernando Gomes percebe o burlesco da situação mas torna tudo num exercico demasiado fellinesco e circense, repleto de piscares de olhos à revista que em nada favorecem este O Dia das Mentiras. Ainda assim, mesmo que sofra do mesmo problema crónico que eu, não hesite em dar o beneficio da dúvida. Não sairá defraudado.

Em cena, até 27 de Abril, de Quarta a Sábado, às 21 horas e Domingo, às 16 e 21 horas.

Título: O Dia das Mentiras
Autor: Rui Mendes (a partir de Almeida Garrett)
Encenação: Fernando Gomes
Elenco: Ângela Pinto, Bruno Batista, Elsa Galvão, Igor Sampaio, Joana Brandão, João Braz, João Didelet, Luís Mascarenhas, Rogério Vieira, Rui Santos, Sofia Petinga e Tónan Quito

2 comentários:

joana disse...

obrigada por nos ter dado o beneficio da dúvida!

Diogo disse...

Bem podem agradecer o benefício da dúvida porque é uma grande generosidade. E incompreensível.