
Anabela Duarte tinha já participado noutras bandas no panorama experimental e tinha inclusivé participado num dueto com Rui Reininho num cd dos GNR, e viria a ser a imagem (e a voz) de marca da banda, a par de Nuno Rebelo. Com uma voz agressiva, num tom que tanto encaixava bem nas baladas mais lentas que atiravam para o fado, como encantava com a força com que empolgava em temas mais Pop. A faceta fadista de Anabela Duarte viria, aliás, a comprovar-se com o disco Lisbunah, que editaria em 1988, um disco onde se afirma como uma excelente intérprete de fado.
E assim, em 1987, altura em que a Pop non-sense e descomprometida proliferava em Portugal (relembrar António Variações e Pop Dell'Arte) e competia com o crescimento do Rock de bandas como os Xutos & Pontapés pela atenção do público português, surge Coisas que fascinam. Um álbum paradigmático do confluir de influências que caracterizava a música Portuguesa, este cd apresenta a peculiar característica de apresentar quer uma forte panóplia de estilos conjugados, quer de vir a influenciar sobremaneira a vertente Pop portuguesa.
Ao ouvir Coisas que fascinam a eito, suge a ideia que o cd não possui uma toada única, um som unificante, tantas são os estilos que as faixas percorrem, mas, ao contrário de outros trabalhos que pecam por isso, essa é um dos grandes trunfos da banda. O apresentar de realidades diferentes que confluíram nos seus ouvidos, e que só a irreverência pode juntar tão harmonicamente. Com um cunho muito forte do experimentalismo (que aliás viria a marcar o trabalho, em termos de projecção e aceitação), ao longo de Coisas que fascinam, é-nos dado a conhecer um entrosamento deste com o Fado, a influência africana (Cabo Verde, especialmente) sobre a música portuguesa, uma ou outra pitada de Jazz, uns ares marroquinos de influência àrabe e muita Pop portuguesa, essencialmente lisboeta, que por vezes, sub-repticiamente, pisca os olhos ao Pop-Rock.
Em termos de alinhamento, os Mler ife Dada começam o seu trabalho com aquele que viria a ser o principal single, "Zuvi Zeva Novi!". Paradigma do experimentalismo de sons e vozes, apresenta-se como um bom cartão de visita, uma música bem conseguida e animada, com o pequeno senão de não demonstrar o potencial de todo álbum. Prosseguia-se o álbum com "Passerelle", mistura híbrida de experimentalismo com Pop-Rock, acentado em fundo Jazz e letra em inglês. "À sombra deta pirâmide" mistura com mestreza o clima árabe que restou em Portugal com o ritmo cabo-verdiano das coladeras, onde por vezes se sente ouvir um pouco de Zeca Afonso transfigurado em Manu Chao. Em "Valete (de copas)", a quinta faixa, surgia a primeira piscadela ao fado, com a voz de Anabela Duarte e o clima muito ambientalista a travar os ânimos experimentalistas com que vinhamos.
Seguimos o fascínio com um dueto entre Rui Reininho e Anabela Duarte em "Siô Djuzé", tema curto e totalmente cabo-verdiano, desconstruído por linhas de um som Pop muito ténue. Quase a chegar ao fim, por entre todo este caminho exaustivo de descortinar influências, ao décimo segundo tema, ouve-se o primordial canto fadista de Anabela Duarte, agora sem subterfúgios experimentalistas ou Pop, numa base clássica que chega a soar a leve e fresca remistura. Mas sempre com o cunho melancólico do fado lisboeta. É "Alfama". É Alfama. Para terminar a refeição o chef serve uma sobremesa de cuisine francesa, "Ça me fascine", prova da influência francesa na banda, se para tal não chegasse o trabalho anterior a Coisas que fascinam, o single "L'amour Va Bien, Merci" (que tinha como lado B "Ele, ela.. e eu", uma versão do tema de Madalena Iglésias.)

Título: Coisas que fascinam
Autor: Mler Ife Dada
Nota:9/10
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